"Ninguém jamais equipararia uma teoria do cinema, que afinal de contas é apenas uma ordem de palavras, à experiência de um filme. Mas, ao mesmo tempo, quem negaria o valor da geologia apenas porque ela reduz os fenômenos das substâncias terrestres a fórmulas químicas e matemáticas? São precisamente essas fórmulas que nos permitem ver o lugar da Terra no conjunto do Universo. De modo semelhante, a generalidade da teoria do cinema nos dá um caminho para compreendermos uma experiência em novos termos, os quais nos deixam colocá-la no universo de nossa experiência como um todo. Nossa experiência do cinema não mais deve ser um aspecto isolado de nossa existência. Alguns podem objetar que, ao colocar o cinema num mundo mais amplo, ao tratá-lo em termos que nos permitem cruzá-lo com outros tipos de experiência, destruímos a singularidade e santidade da experiência do cinema. Mas a maioria de nós está feliz por ser capaz de pensar e falar sobre aquilo que amamos e que continuamos a amar. E a maioria de nós pensa no cinema, não como um modo sagrado de estar com o mundo, mas como outro modo, diferente, de ser humano, diferente de - mas relacionado a - coisas como literatura, ritual religioso e ciência. A teoria do cinema pretende articular esse modo de ser humano, essa capacidade cinemática."
ETERNO RETORNO - Celebrar a vida no que ela tem de mais doce e terrível
“Durante o período em que Nietzsche adotou uma vida errante, a força de suas idéias passou a adquirir um significado ligado a um universo formado por vivências singulares. Acostumado a fazer longas caminhadas, acreditava que o pensamento necessitava de grande fôlego para respirar. Assim foi que, caminhando pelos Alpes suíços em direção a Silva-Plana, fixou o olhar sobre um rochedo piramidal e foi tomado por um êxtase incomum. Ocorreu-lhe então, a visão do eterno retorno. Com ela, o filósofo esboçou uma curiosa concepção cosmológica. Sem finalidades a cumprir, as forças que compõem o universo, embora múltiplas, seriam finitas em termos das possíveis combinações entre si. Sem começo nem fim, o mundo seria, além disso, eterno. Assim, num tempo ilimitado, os estados por que passa o mundo se repetiriam. Não são pequenas as implicações existenciais dessa hipótese global de interpretação. Aceitar que tudo se retorna sem cessar e que nenhum desígnio divino irá salvar o homem da condição aleatória de sua finitude implica afirmar tudo o que ocorre, celebrando a vida no que ela tem de mais doce, mas tbm de mais terrível.” (Filosofia especial – Fernando de Moraes Barros?)
ETERNO RETORNO - Celebrar a vida no que ela tem de mais doce e terrível
SENTIMENTO OCEÂNICO - estado de êxtase e plenitude
“THALASSA, em grego, significa MAR. Em seu ensaio, Ferenczi discorre longamente sobre a relação genital e o desejo de retornar ao corpo materno, ligado ao SENTIMENTO OCEÂNICO, que será apontado por Freud como um efeito da intimidade dos recém-nascidos com o corpo da mãe. A experiência de satisfação nos recém-nascidos e nas outras idades é capaz de gerar um SENTIMENTO OCEÂNICO, um estado de êxtase e plenitude que pode também ser experimentado diante do horizonte marítimo, das paisagens imensas e das obras de arte. O primeiro sentimento oceânico é a origem de todas as experiências estéticas posteriores; ele corresponde ao estado e admiração e receio, o OH! Que se pronuncia diante da beleza. / Em THALASSA Ferenczi descreve a catástrofe original: o dessecamento dos oceanos, obrigando todos os organismos vivos existentes a uma luta desesperada por umidade.” (Elisa Maria de Uchôa Cintra / Fábio Landa – Memória da Psicanálise, 03 – Sándor Ferenczi, A ética do cuidado)
QUANDO KAFKA COMEÇOU A SER KAFKA
“No dia 13 de setembro de 1912, Kafka escreve em seu diário: ‘Esta história de O VEREDICTO eu a escrevi de uma só vez na noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã. Foi difícil tirar minhas pernas já duras debaixo da escrivaninha. O esforço e a alegria terríveis, como a história ia se desenvolvendo diante de mim como se eu estivesse avançando na água. Durante a noite, muitas vezes eu senti todo meu peso nas costas. Como todas as coisas podem ser ditas, como para tudo, para as mais estranhas idéias, existe à espera um grande fogo em que elas se consomem e renascem. Como enfrente à janela o azul transformou-se. Passou um carro. Dois homens cruzaram a ponte. Às duas olhei o relógio pela última vez. Quando a empregada passou pela primeira vez na ante-sala, escrevi a última frase. Apagar o abajur e a luz do dia. As dores leves do coração. O cansaço que desaparece no meio da noite. A entrada trêmula no quarto de minhas irmãs. Leitura em voz alta. Antes, espreguiçar-se em frente à empregada e dizer: Escrevi até agora. A cama arrumada e intacta, como se tivessem acabado de fazê-la. A convicção comprovada de que com a escrita do meu romance me encontro nas vergonhosas terras baixas da escrita. Só assim se pode escrever, só com tal coesão, com esta total abertura do corpo e da alma’. O crítico e tradutor Modesto Carone escreve que ‘O Veredicto’ marca o início do estilo de fato original de Kafka, o início do tema que perduraria por toda sua obra subseqüente, a relação entre pai e filho (e juízes e porteiros e tribunais e portões). Todo este universo seminal é ainda reforçado por um outro trecho do diário de Kafka, de 11 de fevereiro de 1913, onde diz que O Veredicto ‘saiu de mim como um verdadeiro nascimento, coberto de muco e sujeira e só eu tenho a mão para alcançar seu corpo e a força e a força do desejo para fazê-lo’. O impressionante
TODO FENÔMENO OBSERVADO É DIFERENTE DO NÃO OBSERVADO
“Em março de 1927, Heisenberg publicou seu trabalho ‘Sobre o conteúdo perceptivo da cinemática e da mecânica quântica teórica’, no qual afirmava que a incerteza é inerente à medida; - é inevitável. Ou seja, é impossível medir a velocidade de uma partícula e, ao mesmo tempo, determinar a sua posição, sem que a partícula seja influenciada pelos instrumentos de medição. Para medir uma variável, isto é, para observar uma partícula, é preciso iluminá-la, e a incidência de luz equivale a colidi-la com fótons, o que altera sua posição. Em outras palavras, todo fenômeno observado é essencialmente diferente do não observado.” (Maria Cristina Batoni Abdalla – Scientific American – Quânticos, os homens que mudaram a física)**(Imagem do filme Marnie - Hitchcock)
NA LUZ SEMPRE É PRIMEIRA VEZ
“Na luz, o mundo continua a ser nosso primeiro e último amor.” (Albert Camus)
“Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecer o lugar pela primeira vez.”
(Little gidding – T. S. Elliot)
(Imagem do filme Blow up by Antonioni
(Imagem do filme Blow up by Antonioni
SEDE DE UMIDADE
“Não é no instante em que se vira vampiro que se perde a alma, esclarece o filme Sede de sangue (Coréia do Sul – 2009), mas sim quando se decide esquecer o sentimento de ter sido humano.” (Isabela Boscov)
Os alienígenas não só estariam entre nós, mas dentro de nós
Imagem por Fernando Morreu
Toda a pesquisa da bactéria do arsênico, na realidade, se insere dentro de um quadro muito maior, que é exatamente o da investigação da possível existência de uma biosfera paralela presente agora na Terra. Essa biosfera haveria passado desapercebida antes, ou porque era ecologicamente separada da biosfera comum, ou se ecologicamente integrada, bioquimicamente segregada. O trabalho original sobre a bactéria do arsênico enfrentou grandes críticas do meio científico. Chegou-se a dizer que a apresentação dos resultados sobre uma bactéria terrestre não teria nada a ver com astrobiologia. Mas essa acusação é falsa, pois um dos eixos da pesquisa astrobiológica é o estudo dos extremófilos, formas de vida que prosperam em condições extremas. E a GFAJ-I é exatamente isto, um extremófilo. Veja o seu corrosivo habitat, o lago Mono, hipersalino e repleto de substâncias tóxicas.
Se vamos procurar formas de vida extraterrestres, um bom começo seria uma vida resistente às condições que seriam letais para organismos mais complexos e mais conhecidos. Trata-se justamente dos extremófilos, bactérias ou arqueas capazes de sobreviver em ambientes bastante hostis. Com maior probabilidade, as formas de vida alienígenas a serem descobertas serão extremófilos. Assim, a busca de vida em outros planetas foca-se em micróbios. O extremófilo mais bem conhecido é o deinococcus radioduras, que prospera com uma dose de radiação cinqüenta vezes superior àquela que mata um ser humano. Na Terra, os extremófilos sobrevivem a temperaturas entre -20grausC e 230grausC, em meios extremamente alcalinos ou ácidos, a altas doses de radiação ou sem oxigênio. Podem permanecer dormentes no gelo por entre vinte e quarenta milhões de anos e depois serem reanimados. Recentes experiências demonstram que alguns deles sobrevivem por mais de dois anos no espaço, a temperaturas abaixo de -250grausC, sem água e nutrientes, e exposto à luz ultravioleta e vento solar.
O estudo de extremófilos insere-se dentro da compreensão da vida no sentido mais amplo possível, da vida como ela não é, ou seja, da vida baseada em organizações químicas alternativas àquelas da vida terrestre mais comum. Os ambientes da Terra onde vivem os extremófilos fornecem análogos de locais do cosmos com possibilidade de vida, mas antes considerados inabitáveis, seja no Sistema Solar, seja em planetas em torno de outras estrelas. Porém, quando se fala da vida como ela não é, não estamos nos referindo a monstrengos morfologicamente distintos de nós, com dezessete braços, treze pernas e sabe-se lá que outro número primo de apêndices inclassificáveis. Antes de mais nada, trata-se de diferenças no nível molecular. E o trabalho da bactéria do arsênico, exatamente explora outras bioquímicas, pois sendo capaz de substituir o fósforo pelo arsênico no DNA ou em outras biomoléculas, o seu estado abre novas perspectivas para o reconhecimento de vida alienígena. E pode ser que estejamos, na própria Terra, passando ao largo de toda uma biosfera paralela. Ela poderia estar em ambientes inacessíveis a nós na própria Terra, completamente desvinculados ecologicamente da biosfera de superfície. Tais ecossistemas isolados residiriam no piso das fossas oceânicas, nas profundezas da terra, no fundo dos glaciares. Alternativamente, poderia estar no nosso próprio ambiente, ecologicamente integrada, mas não detectada por ter uma bioquímica inesperada. Uma fração dessa vida poderia ser microbiana, e confundida morfologicamente com micróbios comuns, mas ser tão distinta bioquimicamente a ponto de não ser detectável pelos procedimentos habituais.
Dentro do cenário das múltiplas origens da vida, a sua origem seria ou anterior ou posterior àquela da vida que normalmente conhecemos. Esta ‘vida estranha’ se mesclaria com a vida microbiana convencional. Estaria não só ‘debaixo dos nossos narizes’, mas ‘dentro dos nossos narizes’, e não seria reconhecida. Já estaríamos vivendo o pesadelo mais sombrio da ficção científica. Os alienígenas não só estariam entre nós, mas dentro de nós.” (Maysa Mendonça e Amâncio Friaça)
A necessidade de criar e de fazer arte
"Por meio da cultura garantimos nossa continuidade e nos beneficiamos do que se aprendeu antes de nós. Se é certo que tbm nos reprime e oferece contradições entre nossos desejos e nossas conveniências, sem ela já teríamos sido dilacerados pela Natureza. Um dos determinantes culturais fundamentais para a durabilidade de nossa espécie encontra-se na arte e na criatividade, como parecem atestar os mais remotos desenhos encontrados. Jung considera a criatividade um determinante que possui a força de um instinto, ou seja, a arte seria vista como um produto fundamental à espécie humana, e não secundário.[...] A arte, como regra inata de desenvolvimento mental, não seria somente produto da cultura e sim da evolução genética. A necessidade de criar e de fazer arte derivaria de adaptações que melhoram a sobrevivência e a reprodução.[...] Jung vai além, dizendo: 'A influência dominante que originou a arte foi a necessidade de impor ordem à confusão causada pela inteligência'. Ou seja, a dor existencial própria à espécie humana devia de alguma forma achar uma via de compensação para não aniquilá-la.[...] Ela pode cumprir a função de transformadora de consciências e apaziguadora ou instigadora do inconsciente, conforme a necessidade ou o desvio grupal. O poder da arte nesse sentido é reconhecido e muitas vezes usado perigosamente em propaganda institucional ou política, como nos governos fascistas. Mas a obra de arte nos dá a oportunidade de ativar as imagens de assombro e de encantamento. Sem a arte talvez nossa espécie não sobreviveria e, se não podemos alcançar a felicidade, tão efêmera e volátil, podemos apreciar algo de beleza produzida pelo ser humano que nos traz uma brisa de alento." (Liliana Wahba)
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Uma moeda afunda na água da Fontana di Trevi, em Roma. Mick Jagger escova os dentes. O Sol se põe num vale de Marte.
Imagine tudo o que está acontecendo agora, neste segundo. Você acaba de piscar o olho. Uma moeda afunda na água da Fontana di Trevi, em Roma. Mick Jagger escova os dentes. O Sol se põe num vale de Marte. Alguma forma de vida de uma galáxia muito, muito distante, acorda para ir trabalhar. Só dá um desconto: pode ignorar que você não tem como saber se tudo isso está acontecendo mesmo. Só pense nessas imagens como um retrato do Universo inteiro neste momento.
Agora vou pedir que um leitor de uma galáxia muito, muito distante faça o mesmo exercício. Na ideia de agora que ele faz do Cosmos vai estar você piscando o olho, a moeda e tudo o mais? Vai.
Mas aí o leitor da outra galáxia fica com sede e se levanta para tomar um copo de arsênico. Agora que ele está na cozinha eu peço que ele faça outro retrato mental do Universo. Neste momento muda tudo. Na nova imagem dele, feita só 10 segundos depois, a Terra estará no ano de 2100. Isso acontece porque a forma como os indivíduos percebem a passagem do tempo muda conforme eles se movimentam. Foi o que Einstein descobriu: quando a sua velocidade aumenta, você corre em direção ao futuro mais rápido do que quem está parado. Se você vai de bicicleta até a padaria, chega lá mais no futuro do que se tivesse ido a pé. Uma fração de quatrilhonésimo de segundo no futuro, mas chega. Se a bicicleta andasse a 1,07 bilhão de quilômetros por hora (quase à velocidade da luz), você sairia de casa em janeiro de 2011 e compraria seu pão no século 22. Sob as velocidades do dia a dia, o efeito temporal é minúsculo. Mas existe.
Só que a história muda quando entram distâncias muito grandes na jogada. A geometria da coisa é complexa demais para entrar neste texto. Mas, resumindo, é o seguinte: distâncias intergaláticas, de bilhões de anos-luz, amplificam o efeito da velocidade. Por isso que no exemplo do leitor de outra galáxia bastou uma caminhada até a cozinha a menos de 10 km/h para dar aquele salto de 100 anos.
Esse exemplo, criado pelo físico Brian Greene, da Universidade Columbia, entrou aqui para deixar claro um postulado da física: o de que todos os pontos de vista são válidos, mesmo o de um personagem hipotético, como o nosso. Se ele existisse, sua noção de agora, as coisas que o personagem imagina como reais no presente dele, poderiam incluir fatos que para nós ainda não foram resolvidos - como quem será o presidente da República em 2100. Naquilo que para ele é um passado remoto, estaria o dia e a causa exata da sua morte. E você não tem como mudar isso. Em outras palavras: seu destino está decidido. Por isso Einstein disse que a diferença entre passado, presente e futuro é ilusória. Na prática, tudo o que ainda vai acontecer já aconteceu.
Para enxergar isso melhor, pense no Universo como ele realmente é: um grande rolo de filme. Cada frame ali é um instante no tempo. No primeiro, está o início de tudo, o Big Bang. No último, o fim do Universo (seja lá como for esse momento). No meio há um frame com uma fração de segundo do dia da fundação de Roma, outro com o primeiro ensaio dos Beatles, outro com o melhor dia da sua vida, outro com a formatura do seu neto... A Teoria da Relatividade mostra que todos os momentos da existência "acontecem" ao mesmo tempo. Mas, se o futuro já está determinado, não dá para saber o que tem lá na frente? Aí os físicos são unânimes: nem a pau. "Para fazer isso, precisaríamos de uma espécie de supercomputador. Mas nada pode computar mais rápido que a própria natureza", diz o holandês Gerard t´ Hooft, Nobel de física de 1999. Ou seja: para desvendar a natureza, as fatias do futuro, só com uma máquina maior que a própria natureza - uma máquina sobrenatural... Mas, para alguns (poucos) cientistas, esse artefato existe, sim. É você. Nosso cérebro seria capaz de sentir o futuro.(Superinteressante)
Instante decisivo - by Henri-Cartier Bresson
Na fotografia existe um novo tipo de plasticidade, produto das linhas instantâneas tecidas pelo movimento do objeto. O fotógrafo trabalha em uníssono com o movimento, como se este fosse o desdobramento natural da forma, como a vida se revela. No entanto, dentro do movimento existe um instante no qual todos os elementos que se movem ficam em equilíbrio. A fotografia deve intervir neste instante, tornando o equilíbrio imóvel. O olhar do fotógrafo está constantemente avaliando. Um fotógrafo pode captar a coincidência de linhas simplesmente ao mover a cabeça uma fração de milímetro. Pode modificar a perspectiva com um leve dobrar de joelhos. Ao colocar a câmara próximo ou distante do objeto, o fotógrafo pode desenhar um detalhe - ao qual toda a imagem pode ficar subordinada ou ainda que tiranize quem faz a foto. De qualquer modo, o fotógrafo compõe a foto praticamente na mesma duração de tempo que leva para apertar o disparador, na velocidade de um ato reflexo. Algumas vezes acontece de o fotógrafo paralisar, atrasar, esperar para que a cena aconteça. Outras vezes, há a intuição de que todos os elementos da foto estão lá, exceto por um pequeno detalhe. Mas que detalhe? Talvez alguém repentinamente entrando no enquadramento do visor. O fotógrafo, então, acompanha seu movimento através da câmara. Espera, espera e espera, até que finalmente aperta o botão - e então sai com a sensação de que captou algo (embora não saiba exatamente o quê). Mais tarde, no laboratório, ele faz uma ampliação da foto e procura nela as figuras geométricas que aparecem à análise e o fotógrafo se dá conta, então, de que a foto foi feita no instante decisivo. O fotógrafo instintivamente fixou um padrão geométrico sem o qual a foto estaria sem forma e sem vida. A composição deve ser uma das preocupações do fotógrafo, mas no ato de fotografar isto só acontece a partir da sua intuição, já que ele está ali para captar o momento fugidio e todas as relações dos elementos que compõem a cena estão em movimento. Ao aplicar a "Regra dos Terços" , o único compasso que o fotógrafo tem são seus próprios olhos. Qualquer análise geométrica, qualquer redução da foto a um esquema, só pode ser feita - pela sua própria natureza - depois que a foto já foi tirada, revelada e ampliada. E aí, ela só pode ser usada para um exame "post-mortem" da cena. Espero nunca ver o dia em que as lojas de equipamentos fotográficos vendam esquemas geométricos para colocarmos nos visores de nossas câmaras; ou a "Regra dos Terços" colada nos nossos óculos. Se um fotógrafo começa a cortar uma boa foto, isto representa a morte à correta relação geométrica das proporções entre os elementos que compõem a imagem. Além do que, raramente ocorre de uma má foto, que tenha sido mal composta, seja salva pela reconstrução de sua composição no laboratório, pois a integridade da visão do fotógrafo não estará mais lá. Há muita conversa sobre os ângulos da câmara, mas os únicos ângulos válidos existentes são os ângulos da geometria da composição e não naqueles fabricados pelo fotógrafo que se deita no chão ou coisa que o valha para encontrar seu enquadramento.
Há a possibilidade da brincadeira
“A realidade não precisa, necessariamente, nos expulsar de uma história. Uma pessoa livre pode recriar o seu papel no interior de um sonho, e acordar na mesma história. Para Platão, a mimese da mimese, como a cama de Van Gogh, não imita a forma da cama real e não tem a serventia de uma cama natural (Platão – República). A Pintura e a poesia coabitam o mundo alienado dos sonhos, por isso devem ser evitadas. Contudo, em Protrecticus, Aristóteles defende que a finalidade da obra de arte não se esgota em sua serventia. A obra de arte deve abrir nossos olhos para a liberdade. Como mimese de uma natureza que está sempre gerando, criando, fazendo nascer, a pintura e a poesia trágica podem desvelar essa mesma potência nos objetos que já conhecemos. Nesses termos, é livre a pessoa que percebe o que ainda pode ser transformado no interior das relações sociais em que se encontra. Para o espanto de Platão, esse artista visionário de Aristóteles poetiza sobre a natureza, recuperando nos objetos já existentes sua matéria bruta. A cama de Van Gogh não serve para dormir, mas nos ajuda a despertar para a natureza. Segundo o filósofo Heidegger, a obra de arte vive ‘no caráter maciço e pesado da pedra, no caráter firme e maleável da madeira, na dureza e no brilho do metal, no luminoso e no escuro da cor, no timbre do som e no poder de nomear da palavra.’ Se as condições para a liberdade estão inseridas na própria história, não é preciso sonhar com uma realidade alhures, como Platão sugere na alegoria da caverna. É possível retomar a vida e a liberdade na própria história. Há a possibilidade da brincadeira, como ressalta Bérgson, em O Riso: ‘O rígido, o já feito, o mecânico por oposição ao flexível, ao permanentemente cambiante, ao ser vivo, a distração por oposição à atenção e, finalmente, o automatismo por oposição à atividade livre, eis, em suma, o que o riso sublinha e gostaria de corrigir.' ” (Paulo Henrique Fernandes Silveira – Arte como mimese da natureza).
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Fome de um estranho alimento
"Aquilo que mais caramente pertence ao rei é aquilo que o excede. Isso que é mais do que o rei: isso é seu! E pq é maior que o rei, a coisa que pertence ao rei é, afinal, coisa a que o rei pertence. A coisa preciosa nos tem a nós mais do que nós a temos. Possuir não é dominar. Possuir é ser possuido: a coisa possuída atrai e impele o possuidor. A coisa que queremos possuir sem poder, que queremos comer sem consumir, cavou em nós uma estranha fome. Fome de um estranho alimento, que seguiu íntegro depois de alimentar. Fome estranha que não se saciou, mas cresceu depois de servir-se do alimento. Fome que partiu não do estômago, mas do alimento. Essa fome que não é fome e que carrega todas as nossas fomes merece nome próprio: chama-se desejo. E esse alimento que não é alimento foi o que Jean Laplanche chamou objeto-fonte do desejo, para asseverar que o desejo tem seu começo não dentro, mas fora de nós, aquém e além de nós. Possuir não é dominar, tampouco é esgotar pelo conhecimento. A coisa possuida é inexaurível para o pensamento. Quando o desejo faz pensar, o pensador não pensa como quem quer conhecer exaustivamente. Não pensa como quem disseca, pensa como quem ama. Já se ouviu Fernando Pessoa: ´O que em mim sente, está pensando´. A coisa amada arrebata. Tornou possuído o possuidor e pode descambar. A coisa que fomenta desejos é de tal modo desconcertante que merece atenção. É coisa que a gente tem de pensar. A tirania vem da coisa amada quando a gente não sentiu seu enigma, não se espantou, nem pensou nela, não viu a coisa com detalhe, não viu de perto e de longe, não conversou, não ouviu ninguém, deixou a coisa sem interrogação e nada interpretou. Nessa circunstância é que a coisa, por assim dizer, pega fogo e fulmina: a coisa sem alguma tradução, sem vozes que enfrentem suas charadas, arrasta a gente e quem se interponha entre nós e o desejo." (José Moura Gonçalves Filho - Jean Laplanche, a omelete e o seio)
Segundas dimensões...
É a clássica história de terror: um monstro salta de outra dimensão para seqüestrar a pobre menininha. Quantas vezes esse enredo não foi reciclado na literatura e na TV? Ninguém pode negar que a premissa parece fantástica demais. Mas, segundo muitos físicos, talvez seja tudo verdade – talvez existam mesmo outras dimensões, com universos inteiros escondidos dentro delas. Parece loucura? Os cientistas são os primeiros a admitir que sim. É que, segundo eles, estamos falando de uma física do futuro, deduzida “por acidente” no século 20. A história começa com – adivinhe – Albert Einstein. O físico alemão tentava bolar uma teoria que explicasse a força eletromagnética e a gravidade numa tacada só. Einstein queria unificar o reino da física quântica, onde moram as explicações para o eletromagnetismo, e o da relatividade geral, que mostra como a gravitação funciona. Mas as duas teimavam (e ainda teimam) em mostrar que não têm nada a ver uma com a outra. A idéia de juntá-las numa única teoria, num único cenário, parecia impossível. E toda a comunidade científica dizia que Einstein estava perdendo tempo... Toda? Não. Theodor Kaluza, um outro físico alemão, socorreu Albert com uma teoria estranha. Em 1919 mandou-lhe algumas folhas cheias de contas. Eram equações mostrando que dava, sim, para explicar que o eletromagnetismo e a gravidade eram faces diferentes da mesma moeda. Mas com uma condição: apenas se essas forças existissem num universo com 4 dimensões de espaço, em vez de 3. Mas espera aí: como assim 4 dimensões? Bom, viver num espaço 3D, que nem este aqui à sua volta, significa ter como se mover em 3 direções independentes: direita/esquerda, para cima/para baixo e para a frente/para trás. Qualquer movimento que você fizer será nada mais do que uma combinação entre essas direções. Mais: as pessoas geralmente precisam de 3 informações para achar alguém num espaço tridimensional. Na hora de marcar um encontro, por exemplo, você pode dizer que estará na rua tal (dimensão direita/esquerda), número tal (dimensão para a frente/para trás), andar tal (para cima/para baixo). E ainda precisa dar uma quarta dica para não levar bolo: o horário do encontro. Pronto: com 3 dimensões de espaço e uma de tempo qualquer um acha você. Mas num espaço 4D não. Ele vem com uma direção a mais, e que não é nenhuma das que a gente conhece. Duro de imaginar. Mas não impossível. Se desse para a gente andar numa dimensão extra, poderíamos chegar a qualquer ponto do nosso mundo 3D por atalhos inusitados. É como se a 4ª dimensão tivesse o poder de torcer e retorcer o nosso espaço: ela criaria ligações impossíveis entre pontos distantes. Paris, Plutão ou a galáxia de Andrômeda poderiam estar a um passo daqui. Como? Imagine um livro que tenha páginas bidimensionais, com largura e comprimento, mas sem espessura nenhuma. Um livro assim poderia conter um número infinito de páginas e continuar fininho. Do mesmo jeito, uma caixa de fósforos com 4 dimensões poderia abrigar uma quantidade infinita de objetos 3D, como o seu corpo e a galáxia de Andrômeda. Pois é: uma 4ª dimensão abre mais espaço entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. E do que sonhava a matemática. Kaluza inventou sua dimensão extra porque isso lhe permitiria bolar equações extras para unificar as forças. Na física, novas fórmulas brotam naturalmente quando o cientista imagina uma nova realidade. “Assim ele descobriu algo extraordinário: essas novas equações que surgiam para explicar a gravidade num mundo de 4 dimensões eram nada menos que as fórmulas criadas para descrever o eletromagnetismo”, escreveu o físico Brian Greene, da Universidade de Nova York, em seu livro O Tecido do Cosmos. Quer dizer: num mundo 4D, pelo menos em teoria, até duas forças que parecem não ter nada a ver uma com a outra podem se transformar na mesma coisa. Mas a idéia de uma dimensão que está aqui, bem na nossa cara, e mesmo assim continua invisível não agradava. Então um físico sueco chamado Oskar Klein resolveu dar um jeito nisso. E, em 1926, sugeriu que não dava para ver essa outra dimensão por um motivo simples: ela estaria escondida no mundo ultramicroscópico, enrolada em si mesma, como se fosse um canudinho. Assim: se você olha um canudo de longe, ele parece fino a ponto de ocupar só uma dimensão de espaço (esquerda/direita), como se não tivesse espessura. Agora imagine uma formiguinha andando ali em cima. Do ponto de vista dela, há mais direções para se mexer do que de um lado para o outro. O bicho, afinal, é pequeno o bastante para andar também pela circunferência do canudo. Mas, para quem olha de longe, é como se a formiga caminhasse por uma dimensão invisível. Com a 4ª dimensão seria a mesma coisa. Só que ela existiria num espaço realmente pequeno, com raio de 10-33 centímetro, ou 1 milionésimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de centímetro. Tentar vê-la seria como medir a espessura de um canudo na superfície da Lua – sem telescópio. Mesmo assim, foi essa versão que pegou. E a teoria virou uma favorita de Einstein em seus últimos anos de vida. Com a morte do físico, em 1955, foi-se quase todo o interesse pela idéia. Só que o mundo real estava prestes a ficar bem mais complexo.
Os novos átomos
Enquanto o vovô Einstein se debatia buscando a unificação das forças, cientistas mais jovens cavucavam o terreno pedregoso da física quântica, que descreve o mundo infinitesimal dos átomos. E acabaram descobrindo outras além da gravidade e do eletromagnetismo. A mais importante é a força nuclear forte, a supercola que mantém as partículas do núcleo atômico unidas. Além disso, ainda descobriram várias partículas novas e misteriosas. Com tanto trabalho pela frente depois desses achados, ninguém mais queria saber dessa história de dimensões extras, de unificar forças...
Só que um grupo de cientistas chegou, remou contra a maré e, no começo dos anos 70, acabou dando vida nova ao sonho do alemão. Esse pessoal, liderado por jovens físicos como os americanos Leonard Susskind e John Schwarz, resolveu que o melhor jeito de unificar a física quântica e a relatividade era ver se todas as forças poderiam ter uma natureza comum. Checar se todas vinham de um mesmo “ancestral”. Para entender isso direito, vamos dar uma pausa.
A essa altura, a física quântica já tinha descrito os componentes fundamentais de quase tudo o que existe. Viu que boa parte da matéria conhecida é feita de apenas dois componentes: os quarks, que compõem o núcleo atômico, e os elétrons, que orbitam em volta deles. Mostrou também que as forças, como o eletromagnetismo, são feitas de partículas, que funcionam como “átomos” de energia. As da nuclear forte, por exemplo, receberam o nome de glúons. As do eletromagnetismo, fótons. E a gravidade ficaria a cargo dos grávitons. Isso é praticamente tudo o que existe no Universo. Essas 5 coisas formam dos seus dentes à luz do Sol, da força dos ímãs de geladeira às geladeiras propriamente ditas.Mas e aí? Essas partículas elementares são feitas, elas mesmas, de alguma coisa? De onde vieram as danadas? Nem queira perguntar isso a um físico quântico. Ele vai dizer que elas são o que são. E pronto. Mas aquele povo que tentava retomar as idéias de Einstein apareceu com uma resposta menos broxante: do mesmo jeito que seu corpo, um parafuso ou uma estrela são feitos de quarks e elétrons idênticos, as partículas fundamentais também teriam “miniátomos” dentro delas. E concluíram: tanto as forças da natureza como a própria matéria, ou seja, TUDO seria feito de pequenas cordas vibrantes. Pequenas mesmo: mil quintilhões de vezes menor que um núcleo atômico. Quer dizer: se você esticasse o centro de um átomo até o diâmetro do sistema solar, essa corda apareceria com o tamanho de uma árvore. Para ver uma coisa tão diminuta, você precisa de um “microscópio” bem grande: um acelerador de partículas do tamanho da Via Láctea. Má notícia. Só que isso não desmotivou os defensores da idéia. E a teoria ficou cada vez mais popular, inclusive entre os leigos. Muito disso por uma razão especial: as cordas trazem de volta para a ciência a magia das dimensões extras de Kaluza e Klein. Hora de mergulhar nesse mundão de novo.
Seis dimensões escondidas
Para começar a viagem, esqueça os quarks, fótons, glúons... Lembre-se de que, segundo a teoria de Susskind, Schwarz e cia., as partículas que formam o coração de toda a matéria e energia do Universo não existem. Ponto. Se desse para olhar bem no fundo, você veria que cada uma delas é feita de uma única cordinha que sacode sem parar. Mas de jeitos diferentes. Se uma corda vibra num “tom” específico, ela aparece aos nossos olhos como um quark. Se toca em outra toada, surge com a forma de um elétron. Mais outra e temos um gráviton. As partículas fundamentais, enfim, seriam apenas a forma como nossos sentidos percebem a sinfonia das cordas, os verdadeiros átomos do Universo. E essa música não poderia existir sem a idéia das dimensões extras. Por um motivo simples. Imagine uma corda de violão esticada em cima de uma mesa. Só daria para ela vibrar em duas dimensões (esquerda/direta, para a frente/para trás), certo? Então o som não ficaria lá essas coisas. Mas aí, se você tira a corda da mesa para que ela possa vibrar livremente em 3 dimensões, o timbre melhora. Mas ei: e se desse para liberar mais do que 3 dimensões para essa corda? Ela faria sons cada vez mais complexos. E físicos concluíram que essas cordas ultramicroscópicas precisariam de muito, muito mais dimensões para sacudir. Só assim elas vibrariam com energia suficiente para fazer partículas surgir do nada. Os cálculos mostraram que só daria para obter esse efeito se houvesse 9 dimensões de espaço. Ok. Mas onde ficariam as outras 6? A resposta está em Klein: elas só poderiam estar enroladas num espaço ínfimo. Formariam um novelo de “canudinhos” com 10-33 centímetro de extensão, coisa que os físicos batizaram como espaço de Calabi-Yau. Cada corda, então, moraria dentro de um “cubículo” hexadimensional. E assim poderia tocar sua música à vontade num louco mundo 9D. Agora segura aí. A viagem mal começou.
Zilhões de universos
Mais uma dimensão. E desta vez uma especialmente grande, capaz de embrulhar todas as outras. Foi isso que o físico americano Edward Witten sugeriu para a Teoria das Cordas em 1995. Parece pouco, mas se trata de uma das maiores inovações da física teórica desde Einstein. Nascia a grande evolução da idéia das cordas: a Teoria M (de Matrix, ou Mãe... o americano nunca revelou o significado do M). Essa 10ª dimensão que Witten propôs serviria como uma espécie de “pele” protetora para as outras. Segundo os cálculos dele, essa membrana (ou brana, como preferem os físicos) seria nada menos que as paredes do Universo. Isso mesmo: as paredes. Dentro delas existiriam 3 dimensões extendidas até o limite do Cosmos – estas aqui bem na nossa cara e que chamamos de mundo – mais as 6 microscópicas do espaço de Calabi-Yau, mais a do tempo. Até aí, nada de mais. O salto é que a idéia de Witten abre portas para algo estarrecedor: tudo aquilo que conhecemos como Universo seria apenas um terreninho perdido na imensidão de outra coisa – um lugar cheio de universos “embrulhados” em suas branas. Tudo formando uma estrutura descomunal: o Multiverso. Uau. Mas não faltam cientistas que vêem essa coisa toda de um jeito simples. Para Brian Greene, por exemplo, isso é como se a gente vivesse num pão de forma. Nosso Cosmos seria como uma fatia dentro de um pão maior, o Multiverso. Mas e aí? Esse desvario de Witten muda alguma coisa para a física? Muda, sim. Um Multiverso cheio de branas (ou um pão cheio de fatias) pode explicar um dos grandes mistérios da ciência: a fraqueza da gravidade.Quando você leva um tombo, ela não parece nada fraca. Mas, se a gente for comparar com as outras forças, a gravidade vira nada. Por exemplo: basta um ímã de geladeira para levantar um clipe de papel do chão. E não importa que a gravidade do planeta inteiro tente puxá-lo para baixo. O eletromagnetismo, afinal, é nada menos que mil bilhões de bilhões de bilhões de bilhões de vezes mais forte que ela (ou o número 1 seguido de 39 zeros). Um exagero até em termos cósmicos. Mas a idéia do Multiverso fez com que muitos físicos concluíssem que não, a gravidade é tão poderosa quanto as outras forças. Só que estaria diluída entre zilhões de universos. Por quê? Bom, você, os fótons e tudo o mais estariam confinados na nossa brana, na nossa fatia de pão, para sempre. Mas a gravidade não. Ela seria a única coisa com o poder de atravessar as branas, de viajar pelo Multiverso. Cientistas, então, acreditam que os grávitons, os “átomos” dessa força, vazam daqui e se espalham para outros cosmos. Desse jeito, a gravidade parece menos intensa que o eletromagnetismo. Mas não é. E não fica nisso. Alguns acham que esse vazamento até pode explicar o enigma da matéria escura. Lembre-se: ninguém faz idéia de onde vem mais de 80% da gravidade do Universo. Simplesmente não existem planetas, estrelas ou buracos negros em quantidade suficiente para produzir toda a gravidade que os astrônomos observam no céu – principalmente no jeito monstuoso como essa força acelera a rotação das galáxias. E a resposta pode estar nas branas, pelo menos segundo o físico Nima Arkani-Hamed, da Universidade Harvard. Ele, e alguns outros, afirmam que a tal força fantasma não vem de “matéria escura” coisa nenhuma, mas de outros universos. Seria gravidade de outras branas vindo parar aqui. Mais: Paul Steinhardt, da Universidade Princeton, sugere que o big-bang, a explosão que deu origem ao nosso Universo há 13,7 bilhões de anos, só aconteceu porque a nossa brana esbarrou com outra numa colisão titânica. Nós só estaríamos aqui por causa desse pequeno incidente no Multiverso... E Savas Dimopoulos, da Universidade Stanford, vai mais longe: defende que um dia poderemos telefonar para os eventuais ETs de outras branas. Precisaríamos basicamente de um celular intercósmico. Pois é: os nossos telefones móveis se comunicam trocando fótons (ou ondas eletromagnéticas, para usar um termo mais familiar). Então bastaria criar “celulares” que usem grávitons, a fonte das chamadas ondas gravitacionais. O problema é que ninguém achou uma onda gravitacional até hoje. Mas que elas existem, existem, dizem os teóricos. E qual é a verdade por trás de tudo isso? Como diria Jack Pallance, “acredite se quiser”. Ninguém sabe. “De certo modo é apropriado que essa área de pesquisa soe como ficção, porque a maior parte dela provavelmente é”, diz Lawrence Krauss, da Universidade Case Western, nos EUA. Mas, para ele e a maior parte dos físicos, o que interessa é a luta para decifrar a verdade por trás do Universo. “Somos programados para gostar de resolver mistérios. Especialmente quando a solução está longe.”(Salvador Nogueira e Alexandre Versignassi)








